REPORTE LINKS INOPERANTES CLICANDO AQUI: MúsicAmiga
Música de Abertura: "Maranhão, Meu Tesouro, Meu Torrão", de Mano Borges
Mostrando postagens com marcador Poesias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesias. Mostrar todas as postagens

sábado, 20 de março de 2010

O Turista e a Cidade

José Chagas (*)

Cabe a cidade no olho do turista
se é que o turista sabe mesmo olhar.
Há quem não saiba ver o quanto avista
e é como um cego no seu contemplar.

Uma cidade nunca deixa a pista
por onde a gente possa penetrar
a alma da urbe que não se conquista
nem se obtém apenas no enxergar.

E quem leva a cidade só na vista
leva o que em breve pode se apagar,
porquanto o que na memória não registra
jamais terá na mente o seu lugar.
Mas, enfim, o que importa do turista,
mais que o que leva é que ele vem deixar.

Do livro "Azulejos do Tempo".

(*) Paraibano de Santana dos Garrotes, é radicado em São Luís desde a sua juventude.
Jornalista, poeta e escritor, é membro da Academia Maranhense de Letras.
Saiba mais, aqui.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Biografia de Uma Setentona

Ontem completei setenta anos!
Dizem que sete é número cabala
Que quando passa pela gente,
Abala.
Aos sete anos
Sorri.
Vivia feliz, contente,
Ganhei o uso da razão,
Perdi todos os dentes
Ganhei dentes permanentes
E virei gente.
Aos dezessete,
Amei...
Voei, sonhei, criei asas e
Parti.
Com vinte e sete anos,
Pari.
Coloquei filhos no mundo,
Vivenciei um amor muito mais profundo.
Aos trinta e sete,
Perdoei.
Compreendi que sem perdão
O amor não existe,
E sem amor
o mundo fica mais triste.
Aos quarenta e sete,
Exultei,
Virei vovó e descobri
Que ser mãe e avó
É uma coisa só.
Com cinqüenta e sete anos
Engordei.
Me dei conta de que a tarde ia morrendo,
Eu estava envelhecendo
E entrando na terceira idade.
Aos sessenta e sete anos
Chorei.
Bateu uma forte saudade
De tudo o que eu vivi.
Não vi porta pro futuro,
Senti falta do passado
Sentei na beira da estrada
E adormeci.
Com setenta anos
Acordei
E agora estou aqui.
Confusa
Porque sinto que me perdi.
Hei!
Alguém viu uma velha tonta por aí?
Maria da Graça Moreira Leite
Maranhense, poeta e escritora,
Membro da Academia Pinheirense de
Letras, Artes e Ciências

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Horizonte

Te vendo ao longe, quase no infinito,
Me vem o desejo de ir te buscar,
Pois, se eu tivesse asas como o vento
Não pararia sem te conquistar.

Olhando o céu azul beijando a terra,
O sol em brasa queimando a amplidão,
Qual um milagre de tanta grandeza,
Tu és uma fonte de inspiração!

Em cores lindas, tela colorida,
Grava o pintor o amor de sua vida.
Todo carinho por sua beleza.

Só Deus, o artista que ninguém imita,
Pintou o mundo com sua mão bendita
E o entregou à lei da natureza!
Antonio Torres Fróes
in "Fontes de Inspiração

sábado, 29 de dezembro de 2007

Onde Está Wally?

O MúsicAmiga disponibilizou, há algum tempo, a narrativa da versão brasileira de “Jonathan Livingston Seagull” (de Richard Bach), Fernão Capelo Gaivota, o Jonhatan Gaivota.
Por uma infeliz omissão esquece-se, na apresentação, de dar o maior crédito da obra: o da tradução do texto.
Não foi nossa intenção. Foi, perdoem-nos a ignorância, por absoluto desconhecimento. Em busca do comprobatório, pesquisas incansáveis foram feitas e tornaram-se inócuas. Não há um registro sequer. Pobre memória nacional que relega ao olvido obras da espécie, fadadas ao poço do esquecimento e à falta do agradecimento ao artista.
A nós nos vem a autora cobrar-nos, com inegável justiça, a autoria de sua obra, de valor incalculável.
Aqui a nossa remissão: Wally Bianchi é uma das maiores compositoras do cenário musical e artístico brasileiro. Médica, letrista, poetisa, articulista e mulher feliz. Mulher filha-pai-mãe de parições ímpares de obras inimitáveis e gêmeas de sabor e agrado.
Perdão Wally! Nós a achamos!


DECLARO-ME FELIZ

sou mulher!
nenhum homem me dobrou
e nenhum me custeou.
a não ser o meu amado pai,
homem nada me pagou.

e por isso, estou contente
sustentei a minha cria,
sou aquela que não pede,
sou corajosa e valente.

e declaro-me feliz
porque usei, usei e abusei
dos corpos de muitos homens,
de cada homem que eu quis

mulher mistura de pai e mãe
tracei, na vida, meus trilhos,
e, como dizem meus filhos,
além de tudo, sou pãe.

abri meu próprio caminho
trabalhando noite e dia
partejando outras mulheres
e rimando a melodia

e, por ser mulher,
habita em mim uma guerreira
que espera a hora pra lutar
roteiro de uma vida inteira:
vencer cansaço e recomeçar...

e por ser mulher
tenho a honra, levo a glória
de ser um marco na história.
conquistei a liberdade
pra fazer o que quiser.
Wally Bianchi

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Meu Presente de Natal

Ao pé da Árvore de Natal,
Vários mimos em lindo papel,
Fazem a alegria, sem igual,
Desta noite, esperando Noel.

Qual deles que se a mim destina?
- Par de meias ou jóia rara -
Far-me-á toldar a retina,
Tirando-me a lágrima clara?

Porém o meu melhor presente,
Não está no pinheiro silente,
Guardando esta noite em vigília.

Está na vontade, fé e crença,
De sempre manter a presença,
O amor e a união da família.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Obsessão

Ah! tu tens alma de horizonte - incerta,
longínqua, inatingida, fugidia!
Sombra que ao viajor audaz desperta
um frêmito que as carnes arrepia.

E eu, louco, em ti confiando o olhar alerta,
afoito, ousei tentar a travessia
- mas naufraguei na praia atra e deserta
do Desalento e da Melancolia!

Vencido fui, mas inda em mim persiste
(malgrado o horror dessa derrota triste,
que foi na Vida o meu maior revés),

a obsessão - esse desejo insano
de atirar-me de novo em pleno oceano
- para cair, exânime, aos teus pés!

FERNANDO Ribamar VIANA
nasceu acidentalmente em São José de Ribamar, no Maranhão, no entremeio de uma viagem de seus pais, de Axixá para São Bento em 31.10.1904.
Formou-se em Medicina pela Faculdade da Bahia, em 1935. Ao longo de seu curso, em Salvador, colaborou para diversos jornais daquela cidade, assinando sua produção poética como Ribamar Viana. Dessa época o seu soneto Obsessão.
Em São Luís (MA), escreveu em diversos jornais, destacando-se no "O Combate", onde criou e por longo tempo dirigiu uma página literária, Renascimento, destinada a revelar novos talentos maranhenses, entre os quais Lago Burnett, Clóvis Ramos, Nonato Masson e Ferreira Gullar.
Exerceu Medicina gratuita em seu consultório, no Largo do Carmo.
Foi deputado estadual por duas legislaturas.
Membro da Academia Maranhense de Letras, ocupou ali a Cadeira nº 2.
Destacou-se por sua qualidade de causeur, trocadilhista, e humorista de fino trato.
Faleceu em 10.09.1983.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Meu Verbo Amar

Meu verbo amar habita, com certeza,
uma cidade à moda portuguesa,
de traço desconforme, à velha Alfama,
de ladeiras pojadas de Poesia,
a ecoar, pelos chãos de cantaria,
o crepitar da lusitana chama.

Meu verbo amar lhe perambula os becos,
onde, em passo nostálgico, ouve os ecos
das vozes de poetas singulares,
que, traduzindo um mesmo sentimento,
soltaram o estro seu à voz do vento,
no tributo de amor de seus cantares.

Meu verbo amar percorre-lhe os sobrados,
onde azulejos, d'Além-mar chegados,
emouriscam fachadas tropicais
- de tão arquitetônica beleza,
em arabescos, tais, de tal leveza
que assemelham fantásticos murais.

E as ruas onde o verbo amar vadia?
Ao Sol, ouve cantar a Cotovia,
aspirando Alecrim entre Craveiros...
Ouvir-lhe os nomes, lírica emoção:
Afogados... Passeio... Viração...
Inveja... Paz... Desterro... dos Barqueiros...

Meu verbo amar tem pouso firme e certo:
por mais longe que eu vá, em rumo incerto,
se eu deixo São Luís do Maranhão
uma enorme tristeza me desterra
e domina, se insisto noutra terra:
- meu verbo amar só vive no meu Chão!

WALDEMIRO Antonio Bacelar VIANA
Poeta e escritor, nasceu em São Luís (MA) a 24 de julho de 1946.
Formou-se em Direito pela Faculdade de São Luís em 1969.
Foi cronista dos jornais "O Imparcial" - Coluna "Sacada" - e "Jornal do Maranhão" - Coluna "Ponto de Vista" -, por cerca de seis anos.
Publicou três romances, a saber: "Graúna em Roça de Arroz", "A Questionável Amoralidade de Apolônio Proeza" e "O Mau Samaritano".
Tem no prelo o romance "O Pulha Fictício". E ainda, por publicar, o romance "Emoções, Paixões, Traições, Caixões", livre apreciação do caso Pontes Visgueiro, que chocou o País, no segundo quartel do Século XIX.
É membro da Academia Maranhense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 2, em substituição a seu pai, Fernando Viana, o que o enche de justificado orgulho.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Néscios Momentos

Meu coração parou.
Meu nervo: nervoso;
meu sangue: venoso;
a boca: muda.
Quando é assim,
em mim,
tudo muda.

Muda o hábito
- percebe-se de longe -
e o monge.
Cérebro sem comando.
Mão executa,
bruta,
o ato nefando.

Há amargor de bílis,
envenenamento.
Momento
de estranho mistério.
A mente insana
tem gana
de vitupério.

Há ódio e revolta.
Vontade de não ser,
de desviver,
de agredir, ferir.
De ser animal,
chacal,
de só destruir.

Néscios momentos!
Domino a matéria:
sangue, à artéria!
Volto à cor.
Pensamentos,
atentos!
Volta o amor.

sábado, 8 de setembro de 2007

Soneto Dramático



As voltas mirabolantes
De um intestino acrobático,
Estrangulam coadjuvantes
De um mal: câncer linfático.

E o homem parado, estático
Ou em passos vacilantes,
Mostra um sorriso apático
Entre dentes alvejantes.

E com dores cruciantes,
Pensamentos revoltantes,
Agoniza prostático.

Ironiza os circunstantes
E aguarda as crises aflantes
De um choque anafilático.

domingo, 19 de agosto de 2007

Mal Secreto


Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz recôndito inimigo
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja aventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Raimundo Correia
(Sinfonias, 1883.)
Raimundo da Mota de Azevedo Correia, fundador da Cadeira 5, da Academia Brasileira de Letras, magistrado, professor, diplomata e poeta, nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado na baía de Mogúncia, Maranhão, e faleceu em Paris, França, em 13 de setembro de 1911.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Nor...destino


Eu sou das bandas do Norte,
d´onde o homem, prá ser forte,
só precisa ter nascido.
Eu sou da fibra da embira,
sou bebedor de tiquira,
sou de couro bem curtido.

Sou o fio da peixeira,
sou banda de cartucheira,
pano e corte do facão.
Sou o brilho das areias,
sou o facho das candeias,
sou o luar do sertão.

Sou a flor do mandacaru,
sou torrão de mulundu,
sou a carcaça da morte.
Eu sou a onça, de esturro.
Cabra rijo, bom de murro,
cabra macho, mau de corte.

Sou casa de pau-a-pique,
bangüê, engenho, alambique
(ruim de cobre, bom de barro).
Sou o bagaço da cana,
sou a carroça cigana,
parelha de boi de carro.

Sou a Diana Pastora,
Cat´rina desejadora
e Mateus em Boi-bumbá.
Sou a Festa do Divino,
nascer de Jesus Menino,
Ciranda de Itamaracá.

Sou bumba boi de matraca;
xaxado, quadrilha e taca,
embolada, aboio e xote.
Sou cambito e tacuruba,
mocho de maçaranduba,
cabaça, moringa e pote.

Sou tangerino e vaqueiro,
rastejador e mateiro,
bom de laço e de ferrão.
Sou o diabo encourado:
trago no corpo fechado,
perneira, faixa e gibão.

Eu sou a enxada na terra.
Sou a espingarda na guerra.
Velas no Norte Atlântico.
Sou cantador de repente.
Sou violeiro valente
e seresteiro romântico.

Sou mesa farta: vatapá,
buchada, arroz-de-cuchá,
carne-de-sol e pirão.
Acarajé no dendê,
canjiquinha e manuê,
paçoquinha de pilão.

Sou andarilho sedento.
Faminto, caminhar lento,
tentando enganar a morte.
Sou êxodo, retirada.
Sou fuga, sou caminhada.
Sou a procura da sorte.

Eu sou a seca inclemente.
Sou deserto e sol ardente,
caloraço que aperreia.
Sou o trovão retumbante,
chuva e rio transbordante.
Sou o flagelo da cheia.

Sou as lutas intestinas:
Canudos, Balaios. Sinas
de Sabinos e Mascates.
Sou versos de Castro e Dias,
incelências, romarias,
desafio entre dois vates.

Dos grandes feitos, herdeiro:
De Cícero e Conselheiro,
de João Grilo e Cancão.
De Lampião e Maria,
de Corisco e Ventania,
de Aderaldo e Frei Damião.

Eu sou da brava caatinga
e das terras da mandinga.
Sou bem-feito e desatino.
Eu sou das bandas do Norte,
d´onde o homem, prá ser forte,
precisa ser... Nordestino!

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.


Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte,
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

Ferreira Gullar
“Na Vertigem do Dia” (1980)

terça-feira, 31 de julho de 2007

Águas Emendadas

Foi lá que vivi
a milésima, da enésima vez,
em que descobri,
e senti,
no chalé vermelho-três,
a tua nudez.

Lá onde nascem
as águas do hemisfério,
redescobri teu mistério.
Foi lá, eu sei,
que a camisola de cetim,
de cheiro de jasmim,
desnudei.

Foste, como és,
mais mulher, mais cio.
E aos meus pés,
as águas do rio,
de gélidas, aqueceram,
tornaram-se quentes,
ferveram.

Voltaram os tempos
e nós meninos,
cometemos desatinos
gostosos de cometer.
Coisas que poucos,
como só loucos,
sabem fazer.

E eternos namorados,
de mãos dadas,
refizemos juras,
aquelas mais puras.
Beijos apaixonados,
pernas entrelaçadas.
Como as águas:
emendadas...

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Soneto Em Si Sustenido Para Os Sonhos de Semíramis


Se o sonho sublime não for sonhado,
Sepulta-se a saga, sela-se a sorte.
Silêncio no sino, peca o sagrado,
Sofre-se horrível sentença de morte.

Suplício constante, sentido vão.
Sonata sem som, infeliz solfejo,
Será a síndrome da solidão,
Sem nunca sentir o sabor do beijo.

Sonhe, Semíramis, seu simbolismo,
Sacie sexo, sentimentalismo,
Suspire sôfrega e selvagemente.

Sinta o suor, o sal, o sofrimento,
Sorva a seiva salgada do momento,
Segregue sangue para ser semente.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Epopéia do Amor Eterno

Com o espinho da rosa
me feri.
Apaixonei-me. E indefeso,
mas forte,
desafiei a morte
e pelo planeta-história
subi.
Agigantei-me. E por força de amor
(sentimento profundo),
sem esforço
alavanquei o mundo
e o movi.
Transmudei-me e, guerreiro do destino,
sonho alexandrino,
exorcizei o ódio
e o nó górdio
parti.
Cavalguei esperança:
Excalibur, férrea espada,
eu, jeito de criança,
numa estocada
brandi.
O mar eterno, de sal
que sarja e sara,
num Saara
converti.
Com inconfidências de liberdade,
vítima de falsidade,
o peito de alferes
luzi.
Mas se não me quiseres,
sem glória
revolto a história.
De Elba me exilo
e tudo aquilo,
enfim,
que passei
e sofri,
da Muralha ao Muro
de Berlim,
te juro, não vivi.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

O Sertanejo

Esse homem que vem pelo caminho,
Figura esquálida, de andar dolente,
Reflete toda a mágoa de sua gente
E transmite o amargor do ser mesquinho.

A desdita, companheira constante,
Fê-lo descrente de um porvir risonho.
Fartura e graça não passam de sonho,
Fustigando-lhe a alma a todo instante.

Os flagelos cíclicos: seca e cheia,
Matam-lhe os frutos do labor da terra.
O próprio viver se transmuda em guerra,
Exaure-lhe o sangue ao abrir-lhe a veia.

A fuga, o êxodo, a retirada,
A busca eterna do pouso vazante,
Fazem-no nômade, animal errante,
De incontáveis léguas de caminhada.

A parada curta, vaga, emergente,
Traz-lhe sustento para mais um dia:
- Jamais a esmola que, por ser, vicia -
A paga do eito é suficiente.

O açoite da vida a dobrar-lhe o dorso,
O trabalho insano, turrão, sem fé,
São incapazes de arredar-lhe o pé;
Não lhe esmorecem, nem fazem sobrosso.

Pois não só o peso da fatalidade
Curva essa costa sempre sofredora,
A carga maior é compensadora:
É o peso ingente da dignidade.

ARTE: "Retirantes" (Portinari)

terça-feira, 19 de junho de 2007

Acrósticos


São Luís, 1964.

I nda que se passem muitos anos,
S ei que terei, sim, sem desenganos,
A rosa que brota em meus caminhos.
B eijar-te-ei então, ó linda rosa,
E após colher-te-ei, flor radiosa,
L ouco de amor, rasgado de espinhos.


Pinheiro, 1968.

M aior do que tudo no mundo,
A mor, sentimento profundo,
R eluz no coração da gente.
I mploro: não me tragas dores,
L ouco morrerei se tu fores,
U m amor que passou de repente.


Apucarana, 1973

E voco as mil mágicas do Oriente,
M isteriosos sonhos, que em minha mente,
I ntegram-se ao tempo e à poeira.
L abaredas rubras do sol nascente,
I molam-se e trazem, num sopro quente,
A frágil e meiga flor da cerejeira.