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Música de Abertura: "Maranhão, Meu Tesouro, Meu Torrão", de Mano Borges
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Meu Presente de Natal

Ao pé da Árvore de Natal,
Vários mimos em lindo papel,
Fazem a alegria, sem igual,
Desta noite, esperando Noel.

Qual deles que se a mim destina?
- Par de meias ou jóia rara -
Far-me-á toldar a retina,
Tirando-me a lágrima clara?

Porém o meu melhor presente,
Não está no pinheiro silente,
Guardando esta noite em vigília.

Está na vontade, fé e crença,
De sempre manter a presença,
O amor e a união da família.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Néscios Momentos

Meu coração parou.
Meu nervo: nervoso;
meu sangue: venoso;
a boca: muda.
Quando é assim,
em mim,
tudo muda.

Muda o hábito
- percebe-se de longe -
e o monge.
Cérebro sem comando.
Mão executa,
bruta,
o ato nefando.

Há amargor de bílis,
envenenamento.
Momento
de estranho mistério.
A mente insana
tem gana
de vitupério.

Há ódio e revolta.
Vontade de não ser,
de desviver,
de agredir, ferir.
De ser animal,
chacal,
de só destruir.

Néscios momentos!
Domino a matéria:
sangue, à artéria!
Volto à cor.
Pensamentos,
atentos!
Volta o amor.

sábado, 8 de setembro de 2007

Soneto Dramático



As voltas mirabolantes
De um intestino acrobático,
Estrangulam coadjuvantes
De um mal: câncer linfático.

E o homem parado, estático
Ou em passos vacilantes,
Mostra um sorriso apático
Entre dentes alvejantes.

E com dores cruciantes,
Pensamentos revoltantes,
Agoniza prostático.

Ironiza os circunstantes
E aguarda as crises aflantes
De um choque anafilático.

sábado, 25 de agosto de 2007

Lembranças do Vietnã, 1971

Quadros saídos da imaginação de Dante...
Situações que causariam pavor a Maquiavel...
Aqui, à beira do caminho torto e lamacento, um pé. Sem perna, sem corpo, sem nada. Apenas... um pé.
Adiante, nas covas das trincheiras, gritos, morte, carne, lamentações, zumbir de balas -- é impressionante uma bala zumbindo -- e... outro pé.
Por mais paradoxal que seja, o tétrico adquire beleza. Cores: o vermelho do sangue, o rubro do fogo, o amarelo da pele, o branco do nada. Tonalidades: o verde das vestes, o verde das matas, o verde da bílis.
Agora, ação. Quadro vivo, surrealista, pulsante, sonoro. Depois, imobilidade. Cena parada, natureza-morta, inerte, muda.
São milhares, miúdos, minguados. Amarelos, guerrilheiros natos. Os Vietcongs. Alguns nem conhecem a paz: nasceram e vingaram na luta.
Não temem a Deus. Não temem a morte. Rastejantes, sorrateiros, prestes a morrer. E morrem, e morrem e morrem.
Seu sangue é tributo. A morte é glória. Rastejantes, sorrateiros, prestes a matar. E matam, e matam e matam.
O corpo mutilado. Perfurações, talhos. Já não há mais dor ou desespero. Há os que choram pelo tempo, pela terra, pela tribo. Lágrimas que regam o chão. Lágrimas e sangue. Geralmente quentes, tépidos. No momento frios, gélidos.
O corpo é levado. A bandeira rota por cima. Bandeira ultrajada, espezinhada, cuspida. Bandeira da morte. Pedaço de pano colorido. Ideal de uns, mortalha de outros.
Levanta-se a bandeira: o corpo em chagas, cortes, mutilações. Anatomia incompleta: sem os pés.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Nor...destino


Eu sou das bandas do Norte,
d´onde o homem, prá ser forte,
só precisa ter nascido.
Eu sou da fibra da embira,
sou bebedor de tiquira,
sou de couro bem curtido.

Sou o fio da peixeira,
sou banda de cartucheira,
pano e corte do facão.
Sou o brilho das areias,
sou o facho das candeias,
sou o luar do sertão.

Sou a flor do mandacaru,
sou torrão de mulundu,
sou a carcaça da morte.
Eu sou a onça, de esturro.
Cabra rijo, bom de murro,
cabra macho, mau de corte.

Sou casa de pau-a-pique,
bangüê, engenho, alambique
(ruim de cobre, bom de barro).
Sou o bagaço da cana,
sou a carroça cigana,
parelha de boi de carro.

Sou a Diana Pastora,
Cat´rina desejadora
e Mateus em Boi-bumbá.
Sou a Festa do Divino,
nascer de Jesus Menino,
Ciranda de Itamaracá.

Sou bumba boi de matraca;
xaxado, quadrilha e taca,
embolada, aboio e xote.
Sou cambito e tacuruba,
mocho de maçaranduba,
cabaça, moringa e pote.

Sou tangerino e vaqueiro,
rastejador e mateiro,
bom de laço e de ferrão.
Sou o diabo encourado:
trago no corpo fechado,
perneira, faixa e gibão.

Eu sou a enxada na terra.
Sou a espingarda na guerra.
Velas no Norte Atlântico.
Sou cantador de repente.
Sou violeiro valente
e seresteiro romântico.

Sou mesa farta: vatapá,
buchada, arroz-de-cuchá,
carne-de-sol e pirão.
Acarajé no dendê,
canjiquinha e manuê,
paçoquinha de pilão.

Sou andarilho sedento.
Faminto, caminhar lento,
tentando enganar a morte.
Sou êxodo, retirada.
Sou fuga, sou caminhada.
Sou a procura da sorte.

Eu sou a seca inclemente.
Sou deserto e sol ardente,
caloraço que aperreia.
Sou o trovão retumbante,
chuva e rio transbordante.
Sou o flagelo da cheia.

Sou as lutas intestinas:
Canudos, Balaios. Sinas
de Sabinos e Mascates.
Sou versos de Castro e Dias,
incelências, romarias,
desafio entre dois vates.

Dos grandes feitos, herdeiro:
De Cícero e Conselheiro,
de João Grilo e Cancão.
De Lampião e Maria,
de Corisco e Ventania,
de Aderaldo e Frei Damião.

Eu sou da brava caatinga
e das terras da mandinga.
Sou bem-feito e desatino.
Eu sou das bandas do Norte,
d´onde o homem, prá ser forte,
precisa ser... Nordestino!

terça-feira, 31 de julho de 2007

Águas Emendadas

Foi lá que vivi
a milésima, da enésima vez,
em que descobri,
e senti,
no chalé vermelho-três,
a tua nudez.

Lá onde nascem
as águas do hemisfério,
redescobri teu mistério.
Foi lá, eu sei,
que a camisola de cetim,
de cheiro de jasmim,
desnudei.

Foste, como és,
mais mulher, mais cio.
E aos meus pés,
as águas do rio,
de gélidas, aqueceram,
tornaram-se quentes,
ferveram.

Voltaram os tempos
e nós meninos,
cometemos desatinos
gostosos de cometer.
Coisas que poucos,
como só loucos,
sabem fazer.

E eternos namorados,
de mãos dadas,
refizemos juras,
aquelas mais puras.
Beijos apaixonados,
pernas entrelaçadas.
Como as águas:
emendadas...

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Soneto Em Si Sustenido Para Os Sonhos de Semíramis


Se o sonho sublime não for sonhado,
Sepulta-se a saga, sela-se a sorte.
Silêncio no sino, peca o sagrado,
Sofre-se horrível sentença de morte.

Suplício constante, sentido vão.
Sonata sem som, infeliz solfejo,
Será a síndrome da solidão,
Sem nunca sentir o sabor do beijo.

Sonhe, Semíramis, seu simbolismo,
Sacie sexo, sentimentalismo,
Suspire sôfrega e selvagemente.

Sinta o suor, o sal, o sofrimento,
Sorva a seiva salgada do momento,
Segregue sangue para ser semente.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Epopéia do Amor Eterno

Com o espinho da rosa
me feri.
Apaixonei-me. E indefeso,
mas forte,
desafiei a morte
e pelo planeta-história
subi.
Agigantei-me. E por força de amor
(sentimento profundo),
sem esforço
alavanquei o mundo
e o movi.
Transmudei-me e, guerreiro do destino,
sonho alexandrino,
exorcizei o ódio
e o nó górdio
parti.
Cavalguei esperança:
Excalibur, férrea espada,
eu, jeito de criança,
numa estocada
brandi.
O mar eterno, de sal
que sarja e sara,
num Saara
converti.
Com inconfidências de liberdade,
vítima de falsidade,
o peito de alferes
luzi.
Mas se não me quiseres,
sem glória
revolto a história.
De Elba me exilo
e tudo aquilo,
enfim,
que passei
e sofri,
da Muralha ao Muro
de Berlim,
te juro, não vivi.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Carta de Amor

Limbo, trinta e um desejos de mil e novecentos e noventa sonhos.

Mulher,

A tua ausência e a distância que me separa de ti não são suficientes para impedir que a tua imagem se faça presente e visível neste meu quarto escuro.

A ausência e a distância não são capazes de obstaculizar a força do meu amor no projetar a matéria do teu corpo. A escuridão é impotente contra o teu fulgor. Não fossem os raios iridescentes de teus cabelos ou a alvura da tua pele, seria o brilho incontido dos teus olhos a iluminar a própria vida.

Aproximamo-nos. Tão perto que chego a sentir teu hálito morno que rescende a murta-de-cheiro. Tão perto que me vejo refletido no límpido cristalino de teus olhos.

Teus olhos! De oceânico azul, convidam à imersão. Irresistíveis! Neles mergulho e sinto, imediatamente, a purificação própria dos deuses. Embebedo-me de tuas lágrimas de amor e me deixo invadir pelo torpor da leveza e da serenidade. Aí, me deifico.

Adejamos juntos em busca da saída estreita do Limbo, para pecar originalmente. Invadimos o Paraíso, para de lá sermos expulsos por explosões de amor incontido. Iniciamos a gênese dos deuses-amantes.

Reluto em abrir os olhos.

De volta à terra dos homens. O mesmo quarto escuro.

No entanto, em minha quotidiana escuridão interna resplandece a felicidade do teu encontro e nela perdura o odor da murta-de-cheiro e o eco de minhas últimas palavras: eu te amo!

Teu,
Homem.

O Sertanejo

Esse homem que vem pelo caminho,
Figura esquálida, de andar dolente,
Reflete toda a mágoa de sua gente
E transmite o amargor do ser mesquinho.

A desdita, companheira constante,
Fê-lo descrente de um porvir risonho.
Fartura e graça não passam de sonho,
Fustigando-lhe a alma a todo instante.

Os flagelos cíclicos: seca e cheia,
Matam-lhe os frutos do labor da terra.
O próprio viver se transmuda em guerra,
Exaure-lhe o sangue ao abrir-lhe a veia.

A fuga, o êxodo, a retirada,
A busca eterna do pouso vazante,
Fazem-no nômade, animal errante,
De incontáveis léguas de caminhada.

A parada curta, vaga, emergente,
Traz-lhe sustento para mais um dia:
- Jamais a esmola que, por ser, vicia -
A paga do eito é suficiente.

O açoite da vida a dobrar-lhe o dorso,
O trabalho insano, turrão, sem fé,
São incapazes de arredar-lhe o pé;
Não lhe esmorecem, nem fazem sobrosso.

Pois não só o peso da fatalidade
Curva essa costa sempre sofredora,
A carga maior é compensadora:
É o peso ingente da dignidade.

ARTE: "Retirantes" (Portinari)

terça-feira, 19 de junho de 2007

Acrósticos


São Luís, 1964.

I nda que se passem muitos anos,
S ei que terei, sim, sem desenganos,
A rosa que brota em meus caminhos.
B eijar-te-ei então, ó linda rosa,
E após colher-te-ei, flor radiosa,
L ouco de amor, rasgado de espinhos.


Pinheiro, 1968.

M aior do que tudo no mundo,
A mor, sentimento profundo,
R eluz no coração da gente.
I mploro: não me tragas dores,
L ouco morrerei se tu fores,
U m amor que passou de repente.


Apucarana, 1973

E voco as mil mágicas do Oriente,
M isteriosos sonhos, que em minha mente,
I ntegram-se ao tempo e à poeira.
L abaredas rubras do sol nascente,
I molam-se e trazem, num sopro quente,
A frágil e meiga flor da cerejeira.