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Música de Abertura: "Maranhão, Meu Tesouro, Meu Torrão", de Mano Borges
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sábado, 20 de março de 2010

CAIPIRA NÃO SE APERTA
O cumpadi Juvêncio foi pra capitá. Na hora da boia, entrou no restaurante e, pra num fazer feio, sentou ao lado de um cidadão. Tudo o que ele pedia, o cumpadi pedia igual. A história se desenrolou assim:
Cidadão – Ô garçom, me traga um bife a cavalo.
Cumpadi – Um pra mim tomêm.
Garçom (estranhando) – Os senhores estão juntos?
Cidadão – Não, não estamos juntos. Aliás, nem conheço esse capiau aí!
Cumpadi (seguro de si) – Nóis num tâmo junto, mas eu quero um bife-de-cavalo tomêm, uai.
Cidadão (ainda para o garçom) – Aproveite e traga-me um arroz bem soltinho.
Cumpadi – Dois. Um arroz pra mim tomêm.
Daí seguiu-se essa lengalenga. Isso pra irritação do tal cidadão, que foi ficando vermelho.
Cidadão – Traga-me uma água gelada.
Cumpadi – Duas.
Cidadão – Um cafezinho pra arrematar.
Cumpadi – Dois. Um pra mim tomêm.
Cidadão – A conta.
Cumpadi – Duas. Pra mim tomêm (Ainda bem, pensou o cidadão).
Aí o tal cidadão, ao olhar para os próprios pés, notou que os sapatos estavam precisando de uma boa graxa.
Cidadão – Garçom! Traga-me um engraxate.
Cumpadi (no ato) – Um pra mim tomêm!
Cidadão – Peraí, ô capiau. Um engraxate pra nós dois é suficiente.
Cumpadi (na lógica matuta dele) – O sinhô num tem nada cum isso. Eu como um, o sinhô come o ôtro, uai.
Causos do Boldrin

terça-feira, 18 de março de 2008

GAÚCHO MACHÃO
Não gosto muito de contar causo de gaúcho. Tenho admiração pelos fronteiriços. Mas tem um causo de gaúcho que, de quebra, tem um mineirinho pra desanuviar... A história se passou assim: um gauchão, daqueles bem tradicionais, vestido a caráter – pilchado com bombachas, chapéu quebrado na testa, faca na cintura –, entra num empório. Dá um tapa forte no balcão, chamando o vendeiro.
Gaúcho – Me dá uma cana! Dupla, que sou gaúcho. E na minha terra só tem macho! Todos no empório olham para ele, inclusive um mineirinho raquítico que bebericava sossegado a sua pinguinha. E o pior da história – ou o melhor – é que o gaúcho disse isso olhando diretamente para o mineirinho.
O vendeiro serve o gaúcho, ele vira a pinga num gole e, logo em seguida, pede outra.
Gaúcho – Agora com pimenta! Me bota uma cana com malagueta, que na minha terra só tem macho!
Fala isso olhando para o mineiro...
Gaúcho (virando num gole) – Me bota outra, tchê! Agora num copo grandão! E me ponha bastante pimenta-do-reino. Eu sou gaúcho macho. Na minha terra só tem macho!
Fala isso de novo olhando para o mineiro, que nessa hora arrisca uma resposta bem de leve:
Mineiro – Já escutei, sô. O sinhô já falô isso um montão de vez...
Gaúcho (para o vendedor) – Ei, tchê. Tu tens creolina aí? Me bota mais uma cana, agora com creolina. Na minha terra só tem macho!
Olha para o mineiro e pergunta:
Gaúcho – E na tua terra, o que é que tem?
Mineiro (falando bem gaiato e mansinho) – Na minha terra tem macho e fêmea. E nóis se dá muito bem...
Causos do Boldrin

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O BÊBADO E O RATINHO
Esses bêbados da minha terra têm cada uma... Imaginem vocês que um cumpadi meu aparece de repente no bar do Gouveia português, dirige-se ao bom e simpático portuga e pede que lhe sejam servidas duas doses de pinga, que é pra desentupir o peito de tanta poeira. Para surpresa de todos os presentes, o nosso bom de gole, após virar de uma só vez um dos cálices da mardita, tira do bolso da camisa um ratinho miúdo e, carinhosamente, começa a colocar o outro cálice na boquinha delicada do tal rato. Este, por sua vez, sorvia gostosamente a obra-prima da bebida brasileira até enxugar o fundo do cálice.
Esse ritual se repetiu umas dez vezes. É claro que, a essas alturas, o moço já demonstrava em seu comportamento nuances de um cachaceiro. Foi aí que ele pediu ao portuga a conta.
Gouveia – São dez rodadas de duas pingas. Portanto, o senhor me deve 20 doses.
Bêbado – Não, senhor. Tem engano aí. Eu só bebi seis doses e meu ratinho também.
Gouveia – Meu amigo, se estou a lhe dizer que são 20 é porque são 20.
Bêbado (teimoso e enrolando) – De jeito nenhum. Não vou pagar. Eu só tomei seis e o meu rato, seis. O senhor é um ladrão!Gouveia (se altera) – Estou a lhe dizer que são 20 e pronto!
Bêbado – Pois eu não pago e quero que o senhor chame a polícia, porque agora eu vou quebrar a sua cara...
Ratinho (colocando a carinha para fora do bolso do bêbado, com os olhinhos vermelhos de cachaça e enrolando a língua) – E olha aqui, sêo portuga, se aparecer algum gato por aí, o senhor diz que eu mandei ele pros quinto dos inferno, tá?
Quem contou jura que é verdade...
Causos do Boldrin

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O CUMPADI MORIBUNDO
O nosso mestre dos causos, o saudoso Cornélio Pires, já disse em seus livros de pataquadas que não existe história velha. O que há são várias maneiras de contá-la. Assim a dita corre o mundo e de repente reaparece por aqui ou por ali, de forma diferente e cada vez mais engraçada. Feito o registro, passo a contar um causo desses que o velho Cornélio me ensinou e eu mesmo me divirto com esse desfecho até hoje. O caboclo entra correndo na igreja da cidade à procura do sêo vigário e logo perto do confessionário já o encontra. O diálogo que se seguiu foi assim.
Caboclo – Sêo padre! Venha depressa. O sinhô deve ir comigo até o arraiá, pois o cumpadi Zeca tá no úrtimo suspiro. Tá morrendo, o coitado, e eu vim buscá voismecê pra dá uma extremunção pra ele.
Padre – Onde o seu cumpadi está mesmo? Onde ele mora?
Caboclo – No arraiá da curva torta. Tem uns par de légua daqui inté lá. Mas vamos logo, sêo padre. Ele tá esperando o sinhô.
Padre – Me diga uma coisa: o enfermo está mesmo morrendo?
Caboclo – Craro que tá! Já tá inté com a sororoca... Tá na úrtima suspiração. Tá morrendo mêmo...
Padre – Mas, se é tão longe quanto o senhor diz, de nada adianta eu ir até lá para dar a extremaunção, pois quando eu chegar lá o enfermo já terá morrido com toda a certeza.
Caboclo – Num tem esse perigo não, sêo vigário. Quando eu saí de lá, eu me preveni disso. Ele num morre tão fácil porque eu deixei uns amigo meu intretêno ele com uns causo...
Causos do Boldrin

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O MEDO DA ONÇA
Dentre todos os mentirosos que eu conheci, o mais engraçado era o Zé do Farol. Esse tinha um jeito especial de inventar seus causos. Esse que eu passo a contar agora, ao contrário de todo mentiroso que começa contando vantagem, ele começou contando pra gente assim:
Zé Farol – Óia, gente. Esta que eu vou contar agora foi fogo, porque eu sempre tive muito medo de onça. E num é que justamente uma das grandes me apareceu um dia que eu fui caçá? Pois bem: quando eu vi a marvada, carpi os pé. Larguei espingarda, larguei tudo ali mêmo e saí desembestado mata afora.
Ouvinte – E daí, Zé? Conseguiu se livrar da onça?
Zé Farol – Que nada. Pois num é que a mardita garrô corrê atráis de mim feito uma doida? E lá no meio daquele mato. E a onça atráis pega num pega... tava chegando nos meu carcanhá. De repente, eu trupiquei nuns graveto e tuim, caí de boca no chão. Daí, desesperado, virei de barriga pra cima, pra móde num morrê comu covarde. A onça veio vindo... me oiando... e quando chegou pertinho de mim, ponhô a pata em riba do meu peito... abriu aquele bocão bem na minha cara e roncô bem arto ansim: GREEEEE (Zé imitando a onça).
Todos (muito interessados) – E daí, Zé? O que ocê feiz?
Zé Farol – Me borrei todo, me sujei na carça.
Ouvinte – Pois agora gostei de vê, Zé. Agora ocê provô que num mente. Pois, com uma onça dessa no meu peito, até eu borrava. Me sujava as carça também.
Zé Farol (calmo) – Não, gente. Eu tô falando que me borrei, mas foi agora que eu imitei o ronco arto da onça: GREEEEE...

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

FILHOTE NÃO VOA
Existe por aí afora muito caboclinho esperto e safado. Imaginem que lá pras bandas do Corgo Fundo tinha um que era tal e qual do jeito que estou falando.
Pois não é que o dito cujo deu de roubar coisas da igreja de lá? E virava e mexia, o padre saía excomungando o tal, pois não conseguia pegá-lo com a boca na botija, ou melhor, com a mão na mercadoria roubada. E vai daqui e vai dali, continuava sumindo coisa. Ora uma imagem, ora dinheiro dos cofrinhos... Enfim: um despropósito de coragem pra furto.
Mas – sempre tem um mas – eis que o padre resolve botar um paradeiro na roubança. Arma-se de um trabuco carregado e posta-se às escondidas no escuro da igreja em altas horas e ali espera, atocaiado, pelo ladrãozinho que não deveria demorar para aparecer. Devia ser umas 3 da madrugada quando o padre se depara com um vulto esperto na escuridão. Engatilha o trabuco e aponta no rumo do vulto que, percebendo, se esconde com a carinha de safado por detrás de uma estátua grande de um anjo de asas...
PADRE (falando alto) – Quem está aí?
Ninguém, é claro, responde.
PADRE (mais alto) – Quem está aí?
Ninguém responde.
PADRE (apontando a arma engatilhada) – Pois bem. Pela última vez, vou perguntar: quem está aí? Se não responder, vou pregar fogo.
A VOZ (trêmula e disfarçada) – É... é... um anjo, seu vigário. Eu sô um anjo...
PADRE (percebendo a malandragem)– Que anjo o quê, seu idiota! Voa já daí!
A VOZ (caipiresca) – Num posso avuá, seu vigário. Eu sô fióti!
Conta-se que o padre, depois dessa resposta, resolveu ir dormir.
Causos do Boldrin

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

CAIPIRA NO DENTISTA
Tive o privilégio de conhecer pessoalmente o grande e saudoso Cornélio Pires, escritor e contador de anedotas caipiras. Famoso por estudar as características do nosso caipira paulista, Cornélio era da cidade de Tietê, pertinho de São Paulo. Ouvi esse causo, e outros, durante um pequeno show dele em praça pública, alinhavado por modas de uma dupla de viola e violão. Foi na cidade de São Joaquim da Barra, quando eu tinha meus 10 anos de idade e já gostava muito dessas coisas.
A história foi assim:
Um caipira estava sentado na cadeira do dentista, com muita dor (de dente, é claro).
Dentista – O senhor quer extrair o dente?
Caipira (geme) – Não, sinhô. Eu quero é rancá, mêmo.
Dentista – Então vou lhe aplicar uma "injeçãozinha", o senhor vai dormir por uns cinco minutinhos e, nesse tempo, eu lhe arranco o dente. Pois está muito inflamado e, com anestesia local, o senhor não iria agüentar. Tá bom?
O caipira ouve com olhar atento.
Dentista (continua falando) – E para arrancar o seu dente eu vou cobrar apenas 10 mil réis.
O caipira então tira do bolso da calça um maço de notas sujas e começa a desfilá-las com as pontas dos dedos molhados de saliva.
Dentista (interrompendo o gesto do caipira) – Não... não... senhor. Não precisa pagar agora, não, meu amigo. Eu não cobro adiantado.
Caipira (olhando para o dentista) – Quem foi que falô que eu vou pagar adiantado? Tô só contando. Vou lá sabê se quando eu acordar desse sono o meu dinheiro ainda vai estar aqui!
Causos do Boldrin

sábado, 25 de agosto de 2007

MENTIROSO CONTRARIADO
O Furquim era bicharêdo bom pra contar mentira. Certa feita, contou essa:
Furquim – Eu tava no meio do mato, quando de repente me apareceu uma onça duns 10 metros de cumprimento. Naquela hora, vendo aquela bitelona de onça, eu carpi nos pé. Eu corria e a onça corria atrais. Até que eu cheguei na bêra do Rio Sapucaí. O jeito era caí n’água e saí nas braçada. A sorte é que eu nado muito bem. E num instante travessei o rio. Graças a Deus.
Estudante (contrariando) – Espera um pouco, sêo Furquim. Se o senhor nada bem, a onça também sabe nadar e até melhor que o senhor. Seria natural que ela nadasse também, atrás.
Furquim – Foi isso mêmo que se deu. Eu caí n’água e a mardita caiu em riba, sempre nos meu carcanhá. Eu saí do outro lado do rio e ela também. E toca eu correr, até que me deparei com uma grande pedra, muito arta e lisa. Ah, dei um galeio no corpo e pumba: pulei pra riba da pedra. Graças a Deus.
Estudante (pegando no pé) – Mas espera aí. Se o senhor pula bem, a onça pula melhor.
Furquim – Pois foi. Eu pulei e a desgramada pulou também. Eu saí de lá e continuei na carreira. Ah, mas a minha sorte se deu foi agora. Uma grande moita de espinhêro, daquelas bem fechada. Meti os peito, travessei a moita e ó... Graças a Deus.
Estudante (de novo contraria) – Mas se o senhor que é humano, tem a pele macia, atravessou o espinheiro, imagina uma grande onça que tem couro duro. Ela tem que atravessar e continuar correndo atrás do senhor.
Furquim (perdendo a paciência) – Óia aqui, moço. O sinhô qué sabê de uma coisa? A onça me comeu... Tô na barriga dela... E o sinhô vá pros quinto dos inferno, tá bão?
Causos do Boldrin

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

VIOLEIRO EXAGERADO

Quando eu apresentava o espetáculo Brasil em Preto e Branco, contava um causo do inesquecível violeiro Adauto Santos, meu companheiro de cena. Era assim:
Outro dia, esse violeiro aqui foi passando de madrugada numa estrada e bateu na porta duma casinha de bêra de estrada pra móde cavá um quarto pra drumí. Bateu na porta, apareceu uma muié, por sinal muito bonita, e ele pediu pouso.
Muié – Num posso, moço. Num posso deixá o sinhô drumí na minha casa. Sou viúva fresca. Meu marido morreu faz só três mêis. Se eu dexá homi drumí em casa, o pessoar da cidade vai falar mar de mim.
Adauto – Mas, dona, eu num vou mexê com a sinhora, não. O que eu sou é violeiro. Gosto muito de tocá viola. Só quero mêmo é drumí...
Devo dizer aqui que a tal muié devia tá cum bastante vontade duns carinho... Três meses de viuvez, já pensou?
Muié – Não, sinhô! Aqui homi nenhum drome...
E tar e coisa, e coisa e tar, e vai e vem, e vem e vai... Sei que o Adauto insistiu tanto, dizendo que o que ele era mêmo era violeiro dos bão, que a muié acabou cedendo.O Adauto drumiu como um justo a noite inteira. Só acordou de manhãzinha, na hora do café.Quando chegou na porta da cozinha, ainda meio sonolento, percebeu, num galinheiro do quintal, uma coisa estranha.
Adauto – Dona, a sinhora num sabe criá galinha! Seu quintal tem 10 galos e só uma galinha. O certo é o contrário: 10 galinha e um galo.
Muié – Mas o sinhô tá vendo 10 galo aí?
Adauto – Tô!
Muié – Pois fique sabendo que galo mêmo só tem um! Os ôtro são tudo violêro!
Adaptado de Contando Causos, de Rolando Boldrin, (Nova Alexandria, 2001).